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ANTES DE ABRIR O PRIMEIRO LIVRO...
 

Sempre admirei o filme que apresentou o mangá japonês a uma geração inteira de leitores e espectadores. Em vez de reproduzir aquele universo futurista, preferi prestar minha homenagem transportando seu espírito para o Japão feudal, logo após a Batalha de Sekigahara e no início do xogunato Tokugawa.
 

Na época em que escrevia a série, eu praticava kendô. Os treinos, o estudo da cultura japonesa e o fascínio pelo universo dos samurais ajudaram a construir um cenário historicamente mais rico. Mas a espada nunca foi o verdadeiro centro da história.
 

Aprendi, ainda adolescente, lendo as antigas revistas de Conan, o Bárbaro, que uma boa luta só tem valor quando existe uma boa história para justificá-la. Foi ali que percebi que seria impossível escrever páginas e páginas de combates sem criar personagens capazes de emocionar, provocar dúvidas e despertar curiosidade. Por isso, Akira não percorre o Japão apenas enfrentando adversários. Ele resolve mistérios, conhece pessoas, faz amigos, perde outras e tenta compreender um mundo que, muitas vezes, lhe parece estranho.
 

Há, porém, um detalhe que nem eu conhecia quando escrevi essas histórias.
 

Descobri que sou autista há apenas dois anos.
 

Quando criei Akira, eu ainda não sabia disso.
 

Nunca pensei em escrever um personagem autista.
 

Na verdade, escrevi sendo autista, mas sem saber.
 

Durante muitos anos, simplesmente imaginei um personagem que enxergava o mundo da mesma maneira que eu sempre enxerguei.
 

Foi somente depois do diagnóstico que compreendi por que Akira parecia tão diferente dos heróis tradicionais. Sem perceber, eu havia colocado nele muito mais de mim do que imaginava.
 

Akira tornou-se meu alter ego literário.
 

Compartilhamos a curiosidade intensa por determinados assuntos, a facilidade para perceber detalhes que passam despercebidos pela maioria das pessoas, a busca quase obsessiva por compreender o funcionamento das coisas e, ao mesmo tempo, a dificuldade para entender certos comportamentos humanos que parecem naturais para quase todos.
 

Ele é extraordinariamente competente em algumas áreas e surpreendentemente ingênuo em outras.
 

Mestre na arte da espada.
 

Aprendiz nas relações humanas.
 

Talvez seja justamente essa contradição que faça tantos leitores enxergarem nele alguém real.
 

Se, ao final desta jornada, você sentir que caminhou ao lado de um velho amigo pelas estradas do Japão feudal, então Akira terá cumprido sua missão.
 

Boa leitura.
 

André Gonçalves Lopes
Professor Que Salva

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